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Nos últimos dias, retomei o hábito de ler os jornais pela manhã. O aplicativo de leitura que uso no momento é o Aya Bancah, que, a despeito de sua limitação (O Globo, Folha e Extra) me é oferecido pela operadora dentro do plano. Há outros no mercado, o Hube Jornais é o que conheço e mais gosto, pois tem jornais para além do sudeste. Penso em procurar opções para ler os jornais gringos, o que passa na cabeça agora são NYTimes e o Le diplomatique Brasil. Este é um movimento deliberado para passar menos tempo em redes sociais.
Lá pelos anos de 2005, costumava comprar O Globo diariamente com o dinheiro do lanche da escola. Estudava no tradicional Liceu Nilo Peçanha em Niterói e já queria ser cartunista. Naquela época, pensava que só atingiria esse objetivo estando em um jornal. É particularmente estranho pensar isso hoje ao olhar para 2005, quando a internet ganhava cada vez mais espaço com aquele tom otimista pré redes-sociais. Só que eu ainda era o que na época chamávamos de “excluído digital”. Sabia o que era a internet, mas não tinha perspectiva de ter acesso em casa. Ainda nesse ano passei a comprar também o Lance+! seduzido pelas lindíssimas ilustrações de Mário Alberto e Gustavo Duarte.
Já fazia bons anos que eu pensava que seria um cartunista de jornal. Cresci vendo as charges do Chico Caruso no O Globo, onde meu pai era entregador. E é aí que, de fato, reside meu interesse e hábito pela leitura dos jornais. Durante bons anos da minha infância, havia sempre jornal lá em casa, e meu pai via neles uma possibilidade de, digamos, educação para nós. Meus pais são pessoas com baixo nível de instrução, mas sempre deram valor à educação formal, talvez porque nunca a tiveram, e nos incentivavam ao estudo. Eu era favelado, paupérrimo, mas lia o Globo; depois, a Folha; depois, o JB. Engraçado…

Ainda em 2005, a minha forma de aprender alguns detalhes a mais sobre a profissão de cartunista era por meio das revistas de “como desenhar”. Comprava-as de todo tipo: desenhar mangá, desenhar mulher, desenhar quadrinhos, cartuns, realismo etc. Não eram jornais, claro, mas mantinha o elo com a coisa impressa na meu tortuoso autodidatismo, que já à época me orgulhava e emvergonhava quase que na mesma intensidade. Gostava e me orgulhava em saber que estava disposto a correr atrás para aprender, mas queria uma chancela, uma aprovação. Ela veio e não veio. Pelo menos não da forma como um adolescente deslumbrado imaginou. Acontece. Muito. É o peso esmagador que o real exerce sobre nós, todos, sem exceção.

Há 21 anos, comprei uma caixa de lápis de cor aquareláveis da Faber-Castell: 48 cores. Era o ápice para mim. Quando vi, em uma entrevista do Caruso na revista “Como Desenhar Mulheres”, da Editora Escala, que ele usava lápis da marca Carand’Ache, passei a juntar dinheiro para comprá-los; e os comprei no fim daquele ano. Gastei 112 reais por 12 cores, fiquei fascinado. Usava os lápis sem fazer ponta, para não gastá-los. Resultado: ainda os tenho comigo. Alguns se foram, foram gastos; os demais estão aqui e provavelmente serão usados pela minha filha em algum momento da infância.
Andando por Niterói, ainda nesse primeiro ano de ensino médio, eu tinha 14, um achado. Era um curso de desenho chamado Oberg. Ficava perto da rodoviária. Eu me lembro de como foi passar por ali, como foi querer estudar no local. E me lembro de achar curioso não ter tanta poeira. Tinha muita poeira onde eu morava, quase consigo senti-la em meus olhos. Ainda consigo vê-la, é curioso. Supliquei aos meus pais, atenderam. 75 reais de mensalidade. Estudei por 2 ou 3 meses até que o dinheiro acabou. Já conhecia gente que desenhava, mas ali encontrei outras pessoas que como eu estavam nessa vontade de ver o mundo através do desenho, mas mais do que isso: estavam dispostas a investir alguma coisa para se aprimorarem, aprenderem.
Dos jornais às revistas, passando pelo trabalho e a universidade, acho que a minha questão era querer ter uma voz. Uma voz pra dizer. Uma voz pra cessar algumas coisas. Uma voz para existir.
E depois uma voz pra fazer parte da conversa.
Esses quadrinhos são um pouco isso. Uma conversa contigo que imprescinde ser honesta

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Até a próxima!
Um abraço!
Felipe Coutinho,
Niterói – RJ
JUL/2026
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